ALCOA+ no chão: o registro revisado tem que ser o que a planta gerou


No chão, a falha de integridade de dados nem sempre começa por falta de checklist no laboratório. O turno gera injeções, impressos do instrumento, registros no logbook do equipamento e registros de coleta. O dossiê que segue para a aprovação do lote pode mostrar outra coisa: injeções que não aparecem, cópia no lugar do original, dado bruto que não bate com o registro de lote ou com o certificado de análise, ou um registro de coleta que não tem amostra correspondente. A inspeção lê o dossiê. A planta gerou o dado. Quando os dois divergem, a aprovação do lote se apoia em evidência incompleta.
Integridade de dados começa no lote, no logbook e no instrumento, durante o turno. Na prática, ALCOA+ no chão é registro contemporâneo, atribuível, original e exato: o que foi feito, por quem, no momento em que foi feito, sem versão revisada depois. É um padrão comum em warning letters recentes da FDA, e o problema não é de ferramenta. É de execução e de retenção do dado que a inspeção vai pedir.
O que a inspeção pergunta
A distinção importante: a inspeção não pergunta se a equipe fez treinamento de integridade de dados. Pergunta se o registro de lote, o logbook do equipamento e a saída do instrumento descrevem a mesma execução.
No chão, contemporâneo e atribuível significam que o valor foi registrado quando a etapa aconteceu e que é possível identificar quem operou o instrumento ou preencheu o registro. Original é o impresso, a sequência de análise e a trilha de auditoria retidos pelo sistema ou pelo papel, e não a cópia preferida na revisão. Exato completa o conjunto: se o registro diz que a coleta ocorreu e não há amostra, o registro está errado, e a revisão herda o erro.
Nas cartas citadas abaixo, a FDA aponta os seguintes requisitos do 21 CFR Part 211: 211.194(a) (registros de laboratório com dados completos), 211.22(a) (responsabilidades da unidade da qualidade) e, na carta de abril de 2026 [ref. 1], também 211.68(b) (controles de acesso e de alterações em sistemas computadorizados) e 211.192 (revisão dos registros de produção). A guidance da FDA Data Integrity and Compliance With Drug CGMP: Questions and Answers (dezembro de 2018) é referência de interpretação, não regra nova. No Brasil, os requisitos equivalentes estão na RDC 658/2022 (Boas Práticas de Fabricação de Medicamentos) e, para sistemas computadorizados, na IN 134/2022.
Se o sistema de registro, em papel ou eletrônico, permite alterar o que já foi registrado, ou se não é possível cruzar o dado bruto do instrumento com o registro de lote antes da aprovação do lote, o dossiê deixa de refletir a execução.
Quando o dado desaparece ou é selecionado depois
Dois mecanismos são comuns.
Injeções de teste descartadas. Em abril de 2026 [ref. 1], a FDA citou um fabricante de medicamentos acabados por, entre outros pontos, reportar injeções de teste quando o resultado era aprovado e desconsiderá-las quando era menos favorável ou fora de especificação, além de sequências de cromatografia gasosa apagadas e encontradas na lixeira do sistema. O dado que sustenta a aprovação do lote deixa de ser o conjunto completo gerado no instrumento. O controle que falha aqui é o fluxo que permite descartar uma injeção e arquivar só o resultado conveniente.
Original descartado e revisão de cópia. Em setembro de 2026 [ref. 4], a FDA citou um fabricante de IFA nos Estados Unidos por, entre outros pontos, milhares de injeções sem explicação em um sistema de dados cromatográficos ao longo de 30 meses e mais de 70 injeções de teste em outro sistema só em outubro de 2025, feitas sem documentação ou supervisão adequadas para garantir que não eram amostras de produto; também por impressos originais de laboratório encontrados nas caixas de descarte para destruição e revisão feita sobre fotocópias de páginas de caderno de laboratório. Revisar cópia não é revisar o dado original retido. Sem o original disponível, a revisão olha um substituto, que pode ter sido selecionado.
Vale verificar se o fluxo do laboratório ou da produção permite descartar injeções, arquivar só resultados aprovados ou aceitar fotocópia como base para aprovar o lote.
Logbook e dado bruto que não batem
Integridade de dados no chão não se limita ao HPLC. Inclui o logbook do equipamento e o registro que declara uma coleta.
Logbook que não corresponde ao original. Em julho de 2026 [ref. 2], a FDA citou um fabricante de medicamentos isentos de prescrição na Índia por apresentar à inspeção um logbook de uso de equipamento falsificado (o original foi encontrado depois no arquivo) e por divergências entre o dado bruto dos cadernos analíticos e os valores reportados nos registros de lote ou certificados de análise. Se o logbook é o único vínculo entre o equipamento e o lote, e esse vínculo pode ser reescrito, o dossiê deixa de ser evidência de execução.
Registro sem amostra correspondente. Em agosto de 2026 [ref. 3], a FDA citou um fabricante de medicamentos na Índia porque amostras de monitoramento ambiental estavam registradas no logbook como coletadas e incubadas, mas as placas não foram localizadas na incubadora durante a inspeção. O caso interessa aqui como falha de atribuição e exatidão do registro, não como tema de programa de monitoramento ambiental.
Os dois casos apontam a mesma lacuna: é preciso cruzar o dado bruto (instrumento, placa, coleta) com o registro de lote ou de equipamento antes da aprovação do lote. A pergunta útil não é se existe POP de integridade de dados, e sim se é possível cruzar o dado bruto do instrumento com o registro de lote com o original ainda disponível.
O que a unidade da qualidade aprova
Quando o dado do chão não chega íntegro à revisão, a unidade da qualidade pode aprovar o lote sem o conjunto completo do que foi gerado, porque o dossiê já chegou filtrado, copiado ou alterado. Na carta de julho de 2026 [ref. 2], a FDA registra que a unidade da qualidade aprovou registros sem verificar a consistência entre dado bruto e valor reportado.
O que o sistema de registro precisa permitir
Onde o registro eletrônico de lote captura o dado na execução (valor, operador, horário) e permite cruzar o dado bruto do instrumento com o registro de lote, com trilha de auditoria, a planta ganha capacidade de gerar evidência contemporânea e atribuível. Isso não garante, por si, conformidade com ALCOA+ ou com o 21 CFR Part 11. O que o sistema faz é dificultar a alteração do que já foi registrado e tornar esse cruzamento visível antes da aprovação do lote.
Pergunta para o próximo lote
É possível cruzar o dado bruto do instrumento com o registro de lote e ver quem fez o quê, e quando, com o original disponível para a revisão?
Se a resposta for "só depois, com cópia" ou "a injeção de teste não fica registrada", a revisão está trabalhando sobre um registro incompleto, e a aprovação do lote pode estar apoiada nele.
Referências
- FDA — Warning letter, Ava Inc., 14/04/2026
- FDA — Warning letter, Dabur India Limited, 24/07/2026
- FDA — Warning letter, Reliance Life Sciences, 18/08/2026
- FDA — Warning letter, Curia New York, Inc., 18/09/2026
- FDA — Data Integrity and Compliance With Drug CGMP: Questions and Answers (2018)
- ANVISA — IN 134/2022, sistemas computadorizados
- ANVISA — RDC 658/2022 e normas de BPF
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